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Relato de Alessandro Fêrcar – Embaixador do ID_BR.

Confira este relato em homenagem ao Dia Internacional do Orgulho Gay.



Relato de Alessandro Fêrcar – Embaixador do ID_BR.

Meu nome é Alessandro Fêrcar, tenho 21 anos de idade, sou modelo e bailarino afro.

Sou filho de uma doméstica e um ex-alfaiate, nasci e ainda vivo na favela Vila do João, que fica no Complexo da Maré, sou preto, gay e espírita, mas falar abertamente sobre isso nem sempre foi fácil, até porque tive uma criação muito rígida, com um pai conservador e machista, e uma mãe que concordava com ele mesmo com o coração doendo.

Aqui na favela, passei por muitas coisas, já me bateram, tacaram pedras, me chamavam de “viado preto filho da puta”; isso foi se arrastando até os meus 13 anos, a idade na qual me assumi homossexual, nessa época, meu pai já não morava mais conosco, então me senti mais seguro, até porque eu tinha certeza de que não apanharia de ninguém, minha mãe não recebeu muito bem a notícia, mas seu amor foi maior, hoje em dia posso dizer que sou muito mais maduro e forte pra passar por cima disso, mas ainda tem coisas que me machucam quando ouço, tipo “Porra negão! Além de preto é viado?”. Eu sempre respondo de forma afirmativa e firme: “SIM, PRETO VIADO E FAVELADO!”.

Acho que quando você está bem resolvido consigo mesmo, fica mais fácil de lidar com os preconceituosos. Hoje em dia, tenho o meu respeito aqui na comunidade, mas ainda sofro preconceito fora dela; quando saio daqui onde eu moro, a polícia pede pra eu abrir a bolsa, e se for uma pessoa branca, ela fica com receio de fazer isso. Mas eu sigo firme e de cabeça erguida, pois sei que não sou menor do que ninguém só por ser homossexual e por não seguir os padrões estabelecidos pela sociedade ridícula em que vivemos, uma sociedade onde as pessoas se sentem no direito de te agredir se você não for igual a elas.

Uma vez, eu indo ao baile funk, passei pela rua das minhas amigas pra buscá-las, daí um grupo de mais ou menos doze moleques começou a me tacar pedras, naquele dia eu só queria sumir, pois não imaginava que isso aconteceria comigo, tomei minhas providências e o aviso foi dado a dois dos moleques que ficaram, porque os outros correram. Digo que meus guias sempre me acompanharam, pois as pedras eram enormes e nenhuma pegou em mim.

Mas eu sigo na luta diária para combater tudo isso, embora sejam duas coisas diferentes; acho que ser gay às vezes dói menos, porque se você for gay e branco, só sofrerá por ser gay, e às vezes nem sofrerá tanto; agora você sendo negro, a coisa muda totalmente de figura, as pessoas ficam com medo de você, ninguém quer se sentar do seu lado no ônibus, seguranças te seguem, você pode ter uma posição social ótima, mas sendo negro vão querer te diminuir.

São muitas coisas que nos fazem desistir da caminhada, mas que de uma certa forma nos encorajam também, porque no meu pensamento, não é porque eu sou negro, gay e moro na favela que eu vou ser diminuído, eu tenho o meu valor e exijo o meu respeito, até porque é uma coisa que deveria ser primordial no ser humano, então lembre-se: ser negro, gay e morador de favela não te faz uma pessoa menor, muito pelo contrário, são as surras da vida que nos fazem crescer .